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Todos iguais, mas tão desiguais

Atualizado: Fev 10


As questões de “raça” estão na rotina das discussões brasileiras, e nos últimos anos com uma frequência maior, dadas as ações afirmativas implementadas em nosso país, como as cotas, as legislação que criminaliza o racismo e etc. Nas rodas de bar, no trabalho, nas casas, escutamos com frequência manifestações de desconforto com a situação. Como devemos chamar as pessoas, negros ou morenos? Agora temos que tomar cuidado como o que falamos, pois podemos ser acusados de racistas, comentam alguns. Cotas, para que cotas, elas só reforçam o racismo? questionam. Os negros são mais racistas! Afirmam alguns com convicção.


Não há como negar que o Brasil é um país mestiço, e que os negros são parte importante de nossa população, porém, nem antes, nem agora, os negros foram realmente respeitados. Se ainda hoje as questões de igualdade racial, social e de direitos são reivindicadas por significativas parcelas de nossa população, é porque temos um longo percurso a percorrer para que a “Democracia Racial Brasileira”, amplamente propalada, por Gilberto Freyre, através de seu livro Casa-Grande e Senzala (1933), se torne uma realidade.


Em sua consagrada e controversa obra, Gilberto Freyre, baseado no entendimento da existência de uma “singular predisposição do português para a colonização híbrida”, defende que a miscigenação brasileira se deu de forma natural, através do relacionamento do homem branco com mulheres negras e índias, diferente de outros colonizadores, como os Ingleses e Franceses.

O Português não: por todas aquelas felizes predisposições de raça, de mesologia e de cultura a que nos referimos, não só conseguiu vencer as condições de clima e de solo desfavoráveis ao estabelecimento de europeus nos trópicos, como suprir a extrema penúria de gente branca para a tarefa colonizadora unindo-se com mulher de cor. Pelo intercurso com mulher índia ou negra multiplicou-se o colonizador em vigorosa e dúctil população mestiça, ainda mais adaptável do que ele puro ao clima tropical. (FREYRE,1933:13)

Porém, com o passar dos anos, principalmente através da atuação do Movimento Negro, esse e outros entendimentos foram sendo questionados, estabelecendo um novo olhar sobre a “Democracia Racial”, e as versões de uma relação pacífica, respeitosa, natural, passaram a ser questionadas, como faz Nilma Lino Gomes em “Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão (2005)”:

Analisando, hoje, o teor do livro Casa-Grande e Senzala, não há como admitir que uma sociedade em que as relações entre os diferentes grupos étnicoraciais foram construídas/pautadas no trabalho escravo, na dominação e na exploração possa se sentir orgulhosa da forma como, historicamente, se deu o seu processo de mestiçagem. O Brasil, enquanto uma nação “mestiça”, resultante, entre outras coisas, dos contatos e intercursos sexuais entre o português e as mulheres negras e indígenas, construiu-se alicerçado na violência sexual contra essas mulheres e não somente em relacionamentos amistosos entre as raças. Sendo assim, podemos dizer que o livro Casa-Grande e Senzala apresenta a humanidade e as relações sociais e raciais sob a ótica do senhor patriarcal.

O trabalho de Gilberto Freyre, tanto como escritor, mas também como sociólogo, jornalista e palestrante, serviu para abastecer aqueles que entendiam e entendem, ainda hoje, que não houve discriminação racial, e que aos negros e índios não foi negado o direito de se desenvolverem, pois a relação era harmônica, e os negros até gozavam de certos “privilégios”: “Melhor alimentados, repetimos, eram na sociedade escravocrata os extremos: os brancos das casas-grandes e os negros das senzalas. Natural que dos escravos descendam elementos dos mais fortes e sadios da nossa população. Os atletas, os capoeiras, os cabras, os marujos”. (FREIRE, 1933).


Porém, mais de cem anos após a abolição e a transição para a República, nos vemos ainda presos a “Democracia Racial”, difundida por Gilberto Freyre, muito pelo que defende Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1936), que a herança rural, impediu que houvesse uma efetiva democratização em nosso país, e o pensamento patriarcal e personalista, muito presente em nossa cultura, perpetuou as práticas rurais mesmo com o desenvolvimento das cidades.

Um dos efeitos da improvisação quase forçada de uma espécie de burguesia urbana no Brasil está em que certas atitudes peculiares, até então, ao patriciado rural logo se tornaram comuns a todas as classes como norma ideal de conduta. Estereotipada por longos anos de vida rural, a mentalidade de casa-grande invadiu assim as cidades e conquistou todas as profissões, sem exclusão das mais humildes. É bem típico o caso testemunhado por um John Luccock, no Rio de Janeiro, do simples oficial de carpintaria que se vestia à maneira de um fidalgo, com tricórnio e sapatos de fivela, e se recusava a usar das próprias mãos para carregar as ferramentas de seu ofício, preferindo entregá-las a um preto.

Infelizmente, até os dias de hoje, a herança patriarcal e personalista está presente em nossa sociedade, representada em hábitos como depreciar do serviço braçal, algo ainda desvalorizado na sociedade atual, que muitas vezes nos leva a desrespeitar as pessoas em virtude de suas posições, ou quando “certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza” (Holanda, 1936).


A sociedade brasileira contemporânea, ainda preserva resquícios escravocratas, que podem ser facilmente percebíveis em uma analise superficial das estatísticas brasileiras, onde os negros são minoria nas universidades, nas carreiras mais concorridas, como médicos, engenheiros, advogados; recebem as menores remunerações mesmo quando exercem as mesmas funções que um profissional branco; são maioria nas populações com baixa escolaridade, e vivendo em áreas de risco ou nas periferias das cidades; Ocupam quase que predominantemente os postos de trabalho que exigem mais esforço físico, como operários da construção civil, trabalhadores domésticos, garis, catadores e etc.


Com tudo isso, fica a pergunta àqueles que acreditam na Democracia Racial: Como podem os iguais serem tão desiguais?


Reflexão elaborada para a disciplina de História e Cultura Afro-brasileira

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