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Ter candidato a prefeito(a) interfere na formação de bancadas na câmara de vereadores?

As eleições de 2020 podem apresentar um grande número de candidatos a prefeito(a) de Porto Alegre, alguns que realmente almejam alcançar o paço municipal, outros sabem que o desafio é hercúleo, porém, suas candidaturas fazem parte de uma estratégia do partido para conseguir um bom desempenho eleitoral na eleição para câmara, já que este ano não serão permitidas coligações para as eleições proporcionais.


Analisamos o desempenho dos partidos que lançaram candidaturas próprias desde 1988 (A eleições de 1982, por serem as primeiras, e os partidos muito novos, não houve grande repercussão na legenda) para ver em que momento ter candidatura própria ajudou na formação da bancada na câmara de vereadores.


A melhor forma de perceber o impacto da candidatura própria na eleição proporcional não é o número de cadeiras conquistadas pelo partido dos candidatos com melhor desempenho, pois, com as coligações pode acontecer de a maior bancada não ser do candidato vencedor.


O melhor exemplo que temos foi a do atual prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior. Em 2016 Marchezan terminou o primeiro turno como primeiro colocado, obtendo 29,84% dos votos válidos, exatos 213.646 votos, porém, seu partido, elegeu apenas um vereador, Ramiro do Rosário com 4.676 votos; isso aconteceu porque, para a câmara de vereadores, o PSDB concorreu coligado com PP, PMB e PTC, e essa coligação obteve 89.132 votos, elegendo 5 vereadores, porém, os quatro mais votados foram do PP e Ramiro ficou com a quinta vaga, já Moisés Barbosa, também do PSDB, que obteve 248 votos a menos que o colega, ocupou a primeira suplência.


Nesta coligação o PSDB contribuiu com 31.930 votos, 19.911 somados de seus 12 candidatos e 12.019 na legenda, portanto, a legenda contribuiu com 37,6% do total de votos conquistado pelo partido. A legenda do PSDB só alcançou desempenho melhor em 1996 e 2000 quando o partido lançou a candidatura de Yeda Crusius, e a legenda obteve 32.989 e 15.666 votos, respectivamente. Já, os piores desempenhos da legenda foram exatamente nos anos que o partido não lançou candidatos(as) a majoritária.

Na sequência de oito eleições consecutivas, a legenda do PT foi a que mais recebeu votos nas cinco primeiras, e segunda colocada nas outras três, demonstrando que a legenda acompanhou a evolução do desempenho do partido na majoritária.

Não é possível afirmar com precisão o motivo da candidatura majoritária impactar nos votos da legenda do partido. Os mais otimistas acreditam que é porque o eleitor, não tendo um candidato a vereador vota na legenda como forma de auxiliar o seu candidato preferido concedendo-lhe base de apoio na câmara, já os mais céticos creem que trata-se de um erro, ou até 'desleixo', pois as pessoas ficam mais atentas ao candidato a prefeito e chegam na "boca da urna" sem candidato a vereador, então acabam digitando apenas o número do candidato a prefeito, até porque, por desatenção, digitam o número sem olhar se aquele é o voto para prefeito ou vereador.


Seja qual for o motivo, que só é possível saber se pudéssemos entrar na mente das pessoas ou acompanhar o que fazem na urna, o que não é permitido, o fato é que, o desempenho dos partidos na eleição proporcional é influenciado pelo fato de ter ou não candidato na eleição majoritária e o desempenho deste candidato.


A análise dos dados estatísticos comprovam essa situação.


Outro caso que poderia ilustrar esse entendimento é o do PPS, atual Cidadania, o PPS passou por uma transição do antigo PCB para PPS em 1992, neste período o partido se organizava próximo ao PT, porém, a partir de 1997, com o ingresso de Ciro Gomes e objetivos nacionais, o partido começa a buscar seu espaço; em 2000 o partido disputa as eleições majoritárias, com candidatura própria, pela primeira vez em Porto Alegre, tendo Valter Nagelstein como candidato, e alcançou modestos 6.105 votos, 0,78% dos votos válidos.


Em 2001 o PPS recebe um grupo dissidente do PMDB liderado por Antônio Britto e José Fogaça; em 2004, o partido interrompe uma sequência de quatro vitórias consecutivas do PT, elegendo Fogaça Prefeito de Porto Alegre com Eliseu Santos (PTB) de vice. Em 2004 o PPS teve o seu melhor desempenho na legenda, recebendo 13.003 votos, o que confirma a importância de ter uma candidatura competitiva na eleição majoritária para fortalecer a nominata proporcional. Em 2004, o partido elegeu dois vereadores, até então, o último vereador eleito pelo partido tinha sido em 1992.


Em 2007 José Fogaça retorna ao PMDB, partido pelo qual é reeleito Prefeito com José Fortunati de vice em 2008; ano em que o PPS lança Berfran Rosado, vice de Manuela, se beneficiando da coligação com o PCdoB na proporcional, que elegeu três vereadores, todos do PPS. Nas eleições seguintes apóia as chapas de situação lideradas por Fortunati e Mello, respectivamente. Neste período a legenda do PPS recebeu menos de mil votos e elegeu um vereador em 2012 e nenhum em 2016.


Por fim, o maior de todos os exemplos é o Partido dos Trabalhadores - PT, cuja a legenda é a mais votada de toda a história, e o desempenho acompanha o crescimento, e a queda, do partido em Porto Alegre; de 1988 até 2004, por quase 20 anos, a legenda do PT foi a que mais recebeu votos dos eleitores de Porto Alegre, chegando a impressionantes 110.940 votos em 1996; para se ter uma ideia do poder da legenda petista, ela sozinha foi responsável por eleger três vereadores em 1988, quatro em 1992 e cinco vereadores em 1996.


Após o partido perder as eleições em 2004 a legenda começou a perder força, e foi diminuindo até chegar a seu pior desempenho, em 2016, com 13.883 votos; mesmo assim, de 1988 até 2016, em cinco eleições consecutivas o PT foi a legenda mais votada e nas outras três vezes a segunda mais votada.


Em 2020, pela primeira vez, o PT não lançará candidato a prefeito, disputando a eleição coligado com o PCdoB, tendo Manuela D'ávila na cabeça de chapa e Miguel Rossetto de vice. Aguardaremos para ver como será o desempenho da legenda e o tamanho da bancada petista na câmara de vereadores.


Portanto, é possível afirmar que, neste ano, ter candidato a prefeitura poderá auxiliar os partidos a alcançarem seus objetivos de conquistarem bancadas na câmara de vereadores, e quanto melhor e mais viável for o candidato, maior é a contribuição. Isso explica o grande número de pré-candidatos apresentados até o momento.


Preparamos gráficos com o desempenho da legenda de seis partidos para comparação



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