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Que homem é esse?



FREUD, Sigmund. O homem Moisés e a religião monoteísta:Três ensaios. Porto Alegre: L&PM, 2014. 192 p. Tradução do Alemão de Renato Zwick.


Os três ensaios de “O homem Moisés e a religião monoteísta”, de Sigmund Freud nos traz, como personagem central a figura de Moisés o fundador da religião judaica, o libertador do povo judeu, sem dúvida um personagem fundamental na humanidade. Que homem é esse? Essa é uma pergunta que nos inquieta já nas primeiras palavras de Freud que começa assim: “Privar um povo do homem a quem enaltece com maior ele seus filhos não é algo que uma pessoa empreenda com gosto ou de maneira leviana, sobretudo quando ela mesma pertence a esse povo.” Com essa abertura ele nos atrai para dentro de seu universo de questionamentos. Teria Moisés existido? A história de sua existência teria algum fundo de verdade? Ao final da leitura terá Freud “desconstruído” Moisés? Será que os judeus ficarão “órfãos” de Moisés? Moisés era egípcio? Onde se origina o Monoteísmo?


Para trazer esse assunto Freud utilizasse de três ensaios, “Moisés, um egípcio”, Se “Moisés era um egípcio” e “Moisés, seu povo e a religião monoteísta”.


“O homem Moisés e a religião monoteísta” foi o último grande texto publicado por Sigmund Freud, o criador da psicanálise, que faleceu em 23 de Setembro de 1939, mesmo ano da publicação, e demonstra uma característica que marcou a sua trajetória científica, Freud não tinha pudores para fazer ciência, não temia o quão doloridas, pessoalmente e socialmente, poderiam ser suas pesquisas e o resultado proveniente delas, embora temesse as consequências que seus estudos poderiam ter para a prática da psicanálise como poderemos ver em algumas passagens do livro, nas duas versões de notas preliminares e na introdução segunda parte do terceiro ensaio. Freud era de família judia, embora não seguisse as tradições, nunca deixou de se considerar um judeu, e isso não foi obstáculo para que ele empreendesse um estudo sobre a figura de Moisés, e com ela as estruturas do judaísmo, que é base da construção identitária de muitos povos e nações, como a sociedade “judaico-cristã” em que vivemos.


Freud e seus estudos sempre causaram controvérsia, tanto na Viena do século XIX onde tudo começou, como no mundo contemporâneo, e embora fosse um pesquisador de ‘coragem’ ele também temeu pela repercussão de suas ideias, o que fica claro na história destes ensaios. Ele registra que começou a escrever anos antes de sua publicação, ainda em Viena, fruto de suas pesquisas e reflexões, e após já ter publicado o polêmico “Totem e Tabu”, a primeira decisão foi de deixá-lo de lado, porém, “ele me atormentou como um fantasma não redimido,” o que lhe levou a tomar a decisão de publicar na revista Imago o separando, a primeiro parte, “o prelúdio psicanalítico do todo ("Moisés, um egípcio")” e a segunda parte, a construção histórica edificada com base nele ("Se Moisés era um egípcio ... "), a terceira parte que continha “o que era propriamente chocante e perigoso - a aplicação à gênese do monoteísmo e a concepção sobre a religião em geral-, ele tomou a decisão de não publicar e esquecer para sempre.


A História mudou a vida de Freud, e com ela a decisão de não publicar a terceira parte do ensaio, as motivações do seu ‘medo’, e o que o levou a mudar de ideia são esclarecidas nas duas versões das notas preliminares do terceiro ensaio, a primeira redigida em março de 1938 e a segunda em junho do mesmo ano. Na primeira, como que prevendo o que estava por acontecer ele dizia “vivemos numa época particularmente curiosa. Descobrimos com espanto que o progresso selou uma aliança com a barbárie”. Então relatava a situação vivida na Rússia soviética, na Itália, e o que estava se apresentando na Alemanha, e assinalava o papel que a igreja católica, de forma ‘estranha’, segundo sua ótica, exercia no sentido de oposição ao que estava acontecendo nestes países, e por isso, não por covardia, mas por cautela, entendia que não era hora de fazer algo que pudesse despertar a hostilidade da igreja, porque não queria se colocar ao lado do ‘novo’ inimigo, que considerava mais perigoso, já que com o ‘velho’ já havia aprendido a conviver e naquele momento, o que ‘garantia’, de certa forma a sua liberdade, era o fato de viver em um país católico. Freud temia pela proibição de praticar a psicanálise, por isso, deixa claro, que escreveu essa primeira nota preliminar com a intenção de ser uma introdução ‘póstuma’, uma vez que as circunstâncias políticas o impediam de publicar o terceiro ensaio, mas não de escrevê-lo, para que ele pudesse “permanecer guardado na obscuridade até que chegue o tempo em que possa se atrever a sair à luz sem perigo” ou então em uma segunda hipótese, “até que se possa dizer a alguém que se declare partidário das mesmas conclusões e opiniões: "Já houve alguém, em tempos mais sombrios, que pensou o mesmo que você".”


Quando redigiu a segunda nota preliminar, desta vez já com a publicação do artigo, Freud, já vivia na, segundo suas palavras, “bela, livre e generosa Inglaterra”, e faço esse destaque aqui, pelo contexto histórico em que aconteceu. Em março de 1938, portanto, provavelmente dias após ele redigir a primeira nota, a Alemanha invadiu a Áustria, anexando-a aos seus domínios, o que lhe forçou a abandonar a sua pátria, porque, se antes era ameaçado por suas ideias, agora também o era por ser judeu, restou se refugiar na Inglaterra, onde já viviam parte de seus familiares. A ‘opressão’ do nazismo, por vias transversas o ‘libertou’, possibilitando que, sem os obstáculos ‘externos’, pudesse também libertar o terceiro ensaio, e por fim, concluir sua reflexão.

Nesta obra você encontra os três ensaios, traduzidos do alemão por Renato Zwick, antecedidos por um ensaio biobibliográfico de Paulo Endo e Edson Sousa, e prefácio de Betty Bernardo Fuks.


Moisés representado pelo ator Charlton Heston no filme "Os Dez Mandamentos" (1956)

Para começar seria natural que ele tratasse da origem de Moisés, e nesta busca ele começa com o nome, onde surgiu, sua etimologia, nascendo aí sua primeira controvérsia, pois segundo sua analise o nome Moisés não viria do hebraico “mosche” e também não significaria “aquele que foi tirado das águas” como consta nos relatos bíblicos, pois na etimologia hebraica poderia no máximo significar “aquele que tira”, já a possibilidade de se originar na palavra egípcia “mose”, que significava “filho”, parecia um indicativo de que realmente uma família egípcia seja a origem do “libertador hebreu”, no entanto, Freud se pergunta por que nenhum historiador tenha feito essa dedução até aquele momento, talvez “o respeito pela tradição bíblica fosse insuperável, ou a ideia de que o homem Moisés fosse outra coisa que não um hebreu parecesse monstruosa demais,” supõem Freud.


Em um segundo momento tenta analisar a lenda do abandono e a possibilidade de estar aí a “transformação” do Moisés egípcio para o hebreu, porém, ao final conclui que se fez vã a tentativa de encontrar algo consistente que pudesse “desconstruir” a versão predominante sobre a sua origem, e mesmo que considerasse viáveis as conclusões lhe faltava uma prova objetiva, o que lhe impedia de defendê-las publicamente. Freud justifica sua busca na necessidade de dar sustentação histórica a analise das características e particularidades da legislação e da religião que ele deu ao povo judeu.


Embora não defendesse publicamente a compreensão de que Moisés era Egípcio, Freud não desconsidera essa hipótese em seu estudo e no segundo artigo “Se Moisés era um egípcio...” utilizasse dessa hipótese para promover novos questionamentos: o que levaria um egípcio nobre a assumir a frente de um “grupo de estrangeiros imigrados, culturalmente atrasados, e abandonar com eles o país”? Pouco provável se levar em consideração o “conhecido desprezo dos egípcios pelos povos estrangeiros.”


Outro questionamento que nasce é porque Moisés não ofereceu aos judeus a sua própria religião, no caso de ser um egípcio, uma religião egípcia? A religião ofertada ao povo judeu, chamada de mosaica, era uma religião opositora a egípcia, a primeira monoteísta, com apenas um deus, único, onipotente, inacessível, a outra, politeísta, com “uma multidão, difícil de abarcar com a vista, de divindades de variada dignidade e origem”, e assim se sucediam diferenças que pareciam colocar por terra a hipótese da origem egípcia de Moisés.


Porém, em sua busca Freud encontra na religião de Akhenaton, a religião de Aton, a conexão egípcia da religião que Moisés ofereceu aos judeus. Pouco se sabe sobre ela pois, foi abolida a perseguida pelos sacerdotes de Amon, porém, há algumas semelhanças que fizeram com que ele pudesse encontrar um caminho a ser percorrido no sentido de compreender onde, provavelmente, Moisés possa ter ido buscar sua inspiração religiosa. Em uma analise que passa pelo monoteísmo rigoroso e o costume da circuncisão, ele aproxima Moisés de Akhenaton, compreendendo como alguém próximo do faraó, e um dos seguidores da religião de Atom e, portanto o êxodo do Egito teria ocorrido em 1358 e 1350 a.C., após a morte de Akhenaton.


Moisés representado pelo ator Christian Bale no polêmico filme "Êxodo: Deuses e Reis" (2014), dirigido por Ridley Scott

Akhenaton, foi um faraó da XVIII dinastia do Egito, nos primeiros anos de seu reinado, que durou cerca de dezesseis anos, era conhecido como Amenófis IV, e ficou conhecido por romper com a tradição politeísta egípcia e implantar o monoteísmo através da adoração centrada em um único deus, o Aton, para quem construiu uma nova cidade que chamou Aquetaton, ("o horizonte de Aton") para onde se transferiu, abandonando Tebas. A adoração a Aton o opôs aos antigos deuses, o que lhe rendeu a resistência dos sacerdotes, em especial aos adoradores de Amon, que buscaram destruir tudo que havia em sua memória.


Uma conexão com o monoteísmo de Akhenaton e seu deus Aton, “o primeiro caso, e talvez o mais puro, de uma religião monoteísta na história da humanidade”, considerado por Freud, através dos estudos históricos que nos apresenta no segundo ensaio, a base da religião que Moisés ofereceu aos judeus, e a adoração ao deus vulcânico Jeová, adotada pelos judeus em Cades, são o fio condutor, que mais tarde, em Canaã, darão origem ao monoteísmo religioso, que é atribuído a Moisés, e a partir desta conexão e dos desdobramentos históricos que dela ocorrem, Freud que analisa, a luz da psicanálise, os processos que constituíram a religião monoteísta mosaica.


O terceiro ensaio nos trás uma ‘viagem’ ao campo das reflexões psicanalíticas de Freud, que passa também por parte de sua reflexão anterior sobre o totemismo, que exigem de quem lê uma capacidade de atenção e concentração, pois, analisa de forma detalhada as conexões do fenômeno religioso, da qual ele mesmo é parte, a luz das compreensões da psique humana, individuais e coletivas, em sua grande parte, por ele mesmo desenvolvidas, e portanto, a leitura desta obras nos permite transitar no campo das ciências humanas, na compreensão dos fatores históricos e psíquicos que envolvem o pensamento religioso monoteísta.


Vale a pena ingressar na ‘viagem’ que Sigmund Freud nos propõe através de “O homem Moisés e a religião monoteísta”, pois encontraremos reflexões de muito valor sobre a opinião elevada que os judeus têm sobre si próprios, demonstrada através da crença de terem sido o povo ‘escolhido’ por Deus, o que faz pensarem serem mais nobres e superiores aos ‘outros’; e instigados pela resposta da pergunta “como é possível que um único homem mostre uma eficiência tão extraordinária que, a partir de indivíduos e famílias indiferentes, dê forma a um povo, lhe imprima seu caráter definitivo e determine seu destino por milênios?”; mas há quem possa ficar extremamente interessado em sua analise sobre a renúncia aos impulsos, e como a religiosidade nos propõem o ‘sacrifício’ de uma renúncia aos impulsos em nome da expectativa ser recompensado com o ‘amor’ de Deus. Após a leitura desta obra, acrescento outra pergunta à inicial: Que Deus é esse que Moisés nos apresentou? Boa Leitura!


Produção acadêmica do curso de História - Resenha e laborada para a disciplina de História das Religiões

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