• Serginho Neglia

Não quero morrer durante a Pandemia

Atualizado: Abr 27


Cemitério e Memorial Americano - É um cemitério para os soldados americanos que morreram na Europa durante o desembarque, na batalha da Normandia e durante a Segunda Guerra Mundial. O "Normandy American Cemetery and Memorial" está localizado em uma encosta com vista para a praia de Omaha (uma das praias do desembarque da invasão da Normandia, no dia D – 06 de junho de 1944), próximo à cidade de Colleville-sur-Mer - Foto de formulário PxHere

Quero que todos saibam que se eu morrer agora, durante a pandemia, eu vou morrer revoltado, indignado, P da vida.


Sempre compreendia a morte como algo natural, e que cada dia que vivemos mais próximos estamos de morrer, como disse Freud “todo mundo deve à natureza uma morte”, por isso não sou temente a ela, de qualquer forma terei que pagar minha 'dívida' com a natureza, então falo e lido com certa naturalidade sobre o assunto, é claro, com espanto de alguns amigos e familiares.


Já me preparei psicologicamente para a chegada da morte há bastante tempo, portanto, quando ela chegar será respeitada, menos agora. Em todas as minhas projeções, não contava com uma situação como essa, assim, se for por agora, não vou gostar nada nada.


Sempre que posso vou aos velórios de pessoas conhecidas, às vezes, inclusive de pessoas que não conheço, mas que são importantes para quem gosto, tipo, velório de pai ou mãe de amigos.


Não foi sempre assim, pois na juventude achava incômodo ir, me sentia desconfortável e não compreendia direito a importância daquele momento derradeiro de despedida. Porém, depois de presenciar velórios onde estavam presentes muito poucas pessoas, praticamente os familiares mais próximos, percebi que comparecer é um gesto de consideração com o falecido, e com seus familiares, aqueles que estão a sofrer.


Com o passar do tempo e com a frequência destes acontecimentos em nossa vida, vamos nos tornando mais sensíveis a certos detalhes. Em conversas com pessoas após suas perdas, algumas frases sempre me chamaram a atenção: "Nunca tinha visto tanta gente em um velório"; "Não imaginava que ele(a) fosse tão querido" ; "Como ele(a) tinha amigos" . A repetição destas palavras, em diversas ocasiões, me fez compreender o quanto é importante para as pessoas que sofrem perdas, saber que não são as únicas a sofrer por aquela pessoa, que durante a sua vida ela foi amada e querida por outros, que teve amigos, pessoas que tinham apreço e consideração por ela, e o quanto isso é reconfortante.


Um dos dias mais tristes da minha vida. O corpo de Brizola em Porto Alegre - No Rio de Janeiro, em Porto Alegre e São Borja os cortejos foram acompanhados por milhares de pessoas - Foto: Jefferson Bernardes/Palácio Piratini

Presenciei velórios com verdadeiras multidões, lembro alguns que marcaram: O de Tancredo Neves e de Aírton Sena que assisti pela televisão, e só os conhecia 'de longe'; o do saudoso Leonel Brizola, com quem convivi, e que participei até seu sepultamento, com certeza um dos dias mais tristes de minha vida; e mais recentemente o de Eduardo Campos, que tive a honra de conhecer, cujo velório foi em Pernambuco. Foi marcante a imagem do cortejo, que assisti pela televisão, com uma multidão cantando "madeira que cupim não rói".


Sempre conversei com as pessoas a minha volta sobre como queria que fosse o meu velório, que espero não seja vazio. Será uma grande frustração não ter ninguém para dizer algumas palavras, pois, por mais estranho que possa parecer, quero um velório com discursos, e inclusive já "convoquei" alguns amigos para a tarefa, pelo sim, pelo não, resolvi não contar com a espontaneidade, e garantir que alguém realize esse meu 'último desejo'.


Não que eu me ache grande coisa (precisamos ser humildes) mas sempre esperei que, além de meus familiares, que é praticamente obrigatório estarem presentes (embora já fui em velórios que apenas uma parte deles estavam), espero que uma 'meia dúzia' de amigos estejam lá, pelos menos àqueles que 'convidei' a discursarem, para poderem dizer algumas palavras de conforto às minhas filhas, irmãos, pais, e quem mais estiver por ali.

Multidão acompanha o cortejo de Ayrton Senna - São Paulo [Imagem: Antonio Milena/Folha Granjense]

Não desejo que aqueles religiosos que geralmente são convidados para fazer a oração sejam chamados para meu velório, porquê, embora respeite muito esses rituais e essas pessoas, não acharia legal alguém que não me conhece, que nada sabe de mim, falando para as pessoas como se soubesse quem eu fui, e no que acreditava. Se quiserem orar, orem, mas que a oração seja 'conduzida' por alguém que me conheceu, que conviveu comigo, que goste de mim, e não por um estranho, pode ser meus parentes e amigos de qualquer religião, podem orar, cantar, discursar, mas tem que me conhecer, para dizer para minhas filhas alguma coisa que faça elas compreenderem porque vivi, que sentido dei a minha vida. Portanto, aqueles que estiverem presentes e desejarem dizer algo, mesmo que uma ou duas palavras, não se constranjam.


Porquê estou dizendo tudo isso, além de deixar público meus desejos? Estou dizendo isso porque a pandemia que estamos vivendo, além da vida das pessoas está lhes tirando a oportunidade deste momento solene e importante de despedida. Será que Daniel Azulay não merecia um grandioso velório, cheio de amigos e fãs?


A muitas pessoas está sendo impossibilitada a última homenagem. Morrer por um vírus que além de tirar a vida lhe nega um velório, é uma baita sacanagem, algo realmente muito triste.


A pandemia tem tornado virtuais as homenagens, é o que tem restado aos amigos e parentes impedidos de "velar" seus entes queridos. Dia destes li o comovente depoimento de Adip Neto que cujo o pai tinha uma expectativa semelhante a minha quanto ao próprio velório. "...O que se passou dali em diante ainda é atordoante na minha cabeça. Em várias conversas lembro do meu pai fantasiar sobre como seria o velório dele, ele ia aos velórios de todos os nossos conhecidos, tanto quanto ele podia, talvez numa forma de acumular pontos com o universo para que quando fosse chegada a hora dele ninguém o esquecesse."

"Não pude velar nem pude ver o corpo dele, o que me ofereceram foi um saco preto lacrado com nome dele em cima. Não ritualizar essa passagem é doloroso e desumano. Não recebi fisicamente os abraços dos meus amigos e parentes queridos. Não pude abraçar nem consolar minha mãe que teve contato com ele e está em quarentena. Não pude ficar ao lado do caixão como ele tinha me pedido e ir dizendo para ele o nome de todos que lá estiveram para o último adeus. Não pude dar a ele o último adeus e homenagens que ele merecia."

Aqui o depoimento completo https://bit.ly/3anxlgD


Então, estou me cuidando, o máximo que posso, torcendo para que essa tragédia que está ceifando milhares de vidas, e lhes negando uma última despedida, passe logo, para quando chegar a minha hora eu possa ter o meu ritual de despedida e, enquanto não for, que eu possa continuar comparecendo para levar meu abraço solidário e prestigiar aqueles que tiveram alguma importância na minha vida.

E você, o que está fazendo?

Velório de Eduardo Campos - Recife/PE - 17 de agosto de 2014



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