• Serginho Neglia

Documentário “A Negação do Brasil” de Joel Zito Araújo

O documentário “A Negação do Brasil”, é uma das principais obras do mineiro, pesquisador, professor e cineasta, Joel Zito Araújo. Joel dirigiu diversos filmes e documentários, utilizando a temática do negro na sociedade brasileira. Lançado em 2000, “A Negação do Brasil”, que originou um livro de mesmo nome, figura, juntamente com “As Filhas do Vento”(2004) e “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado”(2009), entre as suas mais premiadas obras. Sua obra mais recente é “Raça” lançado em 2013. (Atualização:Em janeiro de 2019 lançou o filme "Meu Amigo Fela" sobre o músico Fela Kuti)


Em “A Negação do Brasil”, Joel Zito Araújo, utilizando de suas memórias pessoais, faz uma passagem pela história da participação dos negros nas telenovelas brasileiras. Nascido em 1954, Joel Zito praticamente cresceu junto com as telenovelas, acompanhando como telespectador, a trajetória desta que é uma das paixões dos brasileiros. Mas como telespectador negro, Zito também cresceu vendo os negros ocuparem, de forma permanente e duradoura, papéis secundários, estereotipados, inferiores.


A riqueza de “A Negação do Brasil” se dá à medida que ele reflete o olhar de um telespectador negro, que assiste como os negros foram tratados nas produções televisivas por mais de 50 anos, e a partir daí dá voz a quem atuou, produziu e dirigiu algumas das principais novelas, abordando o porquê deste tratamento desigual, que se dava não só nos papéis secundários e estereotipados que a eles eram delegados, mas no porque, de em algumas vezes, em papéis importantes, como em “Escrava Isaura”, “Gabriela”, e a “Cabana do Pai Tomás”, terem sido utilizados atores brancos para representarem papéis de negros, Lucélia Santos, Sônia Braga e Sérgio Cardoso, respectivamente, ao invés da utilização de um ator negro.


As obras de Joel Zito Araújo, buscam desconstruir o mito da “Democracia Racial”, muito propagada por setores importantes da sociedade brasileira, mas que não sobrevivem a uma analise como a que é proposta em “A Negação do Brasil”. Alguns depoimentos deixam claro que há uma pressão social, que ainda resiste ao protagonismo dos negros, mesmo na ficção, a ponto de adaptações serem feitas para não ferir o “público consumidor” das novelas.



Valter Avancini, consagrado escritor, autor e diretor, com dezenas de novelas e minisséries no currículo, como Xica da Silva (Rede Manchete-1996/97), Saramandaia (Rede Globo-1976), Selva de Pedra (Rede Globo-1972/73), República (minissérie - Rede Globo1989), Abolição (minissérie - Rede Globo1988) Memórias de Um Gigolô (minissérie - Rede Globo1986) Grande sertão: veredas (minissérie - Rede Globo 1985), descreve em “A Negação do Brasil” como foi a escolha de Sônia Braga, para estrelar o papel da protagonista na novela Gabriela (Rede Globo-1975) – Grifos meus:

“Nós tivemos um acontecimento na história da novela Gabriela do Jorge Amado, onde, em princípio, deveria ser uma atriz negra, ou uma mulata, mais autentica, interpretando a personagem. Ai aconteceu aquele fenômeno, não havia no mercado, realmente, ninguém preparado, nenhuma atriz preparada, eu fiz teste pessoalmente, com aproximadamente oitenta atrizes negras com alguma possibilidade, dentro do biotipo, também, tinha um biotipo do Jorge Amado que era descrito. Dei de frente com essa impossibilidade, seria realmente levar ao desastre se eu insistisse em colocar uma atriz negra não preparada, seria um desastre da própria atriz negra, do próprio conceito das possibilidades do ator negro, seria a reafirmação dos reacionários, de que o ator negro não tem talento, na verdade ele não teve foi possibilidade cultural de preparação para enfrentar esse mercado de trabalho artístico. A solução foi buscar um tipo brasileiro, que não fosse mulato, mas um tipo caboclo, eu acho que a Sônia Braga tem esse tipo brasileiro, ela é uma mestiça, na minha opinião, ela tem todo o biotipo da mestiça, e prepará-la para o papel, como foi feito.”


Esse depoimento do Avancini merece alguns destaques (em negrito no texto), ele deixa claro que havia, e acredito que ainda há, um preconceito com os artistas negros, disfarçado sobre o manto daquilo que hoje chamam de “meritocracia”, que em resumo quer dizer, que as funções devem ser ocupadas pelos “competentes”, “capacitados”, e no caso do artista negro “ele não teve foi possibilidade cultural de preparação para enfrentar esse mercado de trabalho artístico”. O que chama a atenção é que a primeira versão de Gabriela foi ao ar em 1975 e em 2012 a Globo exibiu uma nova versão, mas que novamente não teve uma protagonista negra no papel de Gabriela. Será que ainda não haviam atrizes negras, “capacitadas”, “competentes”, “preparadas” para o papel?


Porém, em continuidade ao depoimento, Valter Avancini deixa a mostra parte dos reais motivos que excluem os negros e os pobres das telenovelas – Grifos meu:

Um outro fator também que sempre afastou o negro da televisão, é o mesmo fator que sempre afastou o pobre da telenovela, o autenticamente pobre, aquele marginalizado, aqueles, sei lá, 30% do nível de miserabilidade até, que a gente encontra até hoje neste país. O enfocar isso, não seria conveniente, sob o ponto de vista de marketing, digamos assim, pra a própria emissora que exibe as suas telenovelas, seria mostrar um mundo que poderia incomodar o próprio telespectador de classe média, porque a televisão dos anos 70 até o começo de 90 por aí, ela era especificamente dirigida a uma classe média-média e um pouco da classe média alta, a classe menos favorecida essa não tinha espaço porque não era uma boa estética para a televisão.


Cartaz do documentário "A Negação do Brasil"

No documentário “A Negação do Brasil”, é possível assistir o depoimento de Milton Gonçalves, um dos principais atores brasileiros, militante, politizado, atuante, que comenta importantes passagens da luta da classe artista negra, bem como da atriz Zezé Mota, que relata o comentário que escutou de uma vizinha quando a mesma soube que ela estava frequentando um curso de arte dramática no Tablado (O Tablado é uma das principais escolas de teatro do país, fundada em 1951, no Rio de Janeiro pela escritora e dramaturga brasileira Maria Clara Machado): “Eu não sabia que para fazer papel de empregada precisava fazer curso”. Este comentário ilustra bem o inconsciente coletivo de uma sociedade que só vê os negros em papéis subalternos. Anos depois, Zezé Mota, foi envolvida em uma ação de racismo na novela “Corpo a Corpo” (Globo - 1984) quando parte dos telespectadores se revoltaram com o romance entre seu personagem Sônia, uma negra de classe média, e um jovem branco de família rica, Cláudio, personagem do ator Marcos Paulo.


Também é possível refletir sobre os “Noronha”, uma família negra de classe média, na novela “A próxima vítima” (Rede Globo – 1995), que é apresentada como uma família que não enfrenta problemas de discriminação racial, mas que por outro lado discrimina o namorado branco da filha, e cujo patriarca é uma pessoa extremamente machista.


Em “Pátria Minha” (Rede Globo – 1994) uma polêmica mobilizou o movimento negro, que questionou a postura “submissa” com que o personagem Kennedy (Alexandre Moreno) é retratado diante das agressões verbais do personagem Raul Pellegrini (Tarcisio Meira), que segundo o movimento, não refletia o comportamento do negro contemporâneo. Ações na justiça e polêmicas na imprensa levaram a Rede Globo a tentar corrigir o problema exibindo uma cena onde a personagem Zilá (Chica Xavier) condena o racismo e dá conselhos para Kennedy.


“Eu sou negra, e não tenho nenhuma vergonha disto não, eu não gosto quando vejo também, uma negra feito eu, fazer plástica para ficar de nariz fininho, porque é a nossa raça! Não tem essa de branco, negro, japonês, índio, é tudo Igual, tudo gente! Eu não deixo que safadeza de racista, meu filho, venha modificar nada na minha vida, não. Eu ouço essas coisas desde criança, porque eles falam mesmo, é eles falam, e eu não deixo que nada disso venha influenciar na minha vida, a gente não pode deixar que isso venha influenciar na vida da gente, porque quem fala essas coisas, meu filho, é gente ruim, ruim e burra, mas graças a Deus essa gente está desaparecendo, porque o mundo está melhorando, agora, se você entra nessa de complexo, você vai estar fazendo o jogo dos safados, dos burros, e vai estar entrando nesta de racista também. Eu vou ficar muito decepcionada com você!”


Joel Zito Araújo - Foto de Tânia Rêgo - Agência Brasil

A fala elaborada para “criticar” os racistas, mais parece criticar os negros, tentando fazer parecer que os racistas são uma minoria, de pessoas más e burras, e que cabe aos negros “não dar bola”, não deixar se influenciar por eles. A “igualdade racial”, também está presente no discurso, quando afirma: “Não tem essa de branco, negro, japonês, índio, é tudo igual, tudo gente!” A crítica dada a quem faz plástica para afinar o nariz é completamente desnecessária, e tenta passar a imagem de que são os negros que não se aceitam, e que querem se parecer brancos e, portanto, é uma questão de autoestima, e não uma questão de opressão branca. No final, fazem uma crítica velada aos movimentos negros que levantaram a polêmica, insinuando que quem se sente ofendido, agredido, ou incomodado, na verdade “faz o jogo dos safados”.


Durante décadas, as novelas vêm sendo porta-vozes do preconceito, retratando, de forma perversa, a desigualdade racial do nosso país, alimentando o sentimento de superioridade dos brancos sobre os negros, estigmatizando, subjugando, inferiorizando os negros através da “ficção”. Se por um lado as telenovelas são capazes de gerar moda, influenciar hábitos de consumo, possui também, pelo mesmo poder, a capacidade de tornar duradouro, comportamentos que nossa sociedade a muito já deveria ter abolido.


"A Negação do Brasil” é um documentário muito rico em detalhes, que descortina a hipocrisia de uma sociedade que nega o preconceito, a discriminação, o racismo e a desigualdade racial, mas que deixa a mostra, de uma forma até explicita, que os negros brasileiros ainda não são respeitados como deveriam, e que há muito por ser conquistado, pois, os processos culturais que nos trouxeram até essa triste realidade, são de longa duração e não desaparecerão do dia para a noite.


Produção acadêmica do Curso de História - Resenha elaborada para a disciplina de História e Cultura Afro-brasileira



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