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“Cinco Vezes Favela: Agora por nós mesmos”



“Cinco Vezes Favela: Agora por nós mesmos” é um filme brasileiro produzido por Cacá Diegues, concebido e dirigido por jovens cineastas moradores das favelas do Rio de Janeiro. A professora propôs que assistíssemos o filme e escrevêssemos sobre as reflexões que ele nos proporcionou. Vamos a ela então.


“Cinco Vezes Favela: Agora por nós mesmos” é dividido em cinco episódios que retratam situações cotidianas dos moradores da favela e suas relações familiares e sociais, na frase proferida pelo personagem do primeiro episódio está sintetizada a mensagem que o filme procura passar e a reflexão que ele propõe: “Onde eu moro, o certo e o errado se misturam, é difícil saber o lado da lei”.


Episódio 1 - FONTE DE RENDA

Neste primeiro episódio, os autores transmitem a realidade e as dificuldades de um estudante das classes mais baixas, em frequentar uma faculdade, a começar pelo ingresso em um curso superior e principalmente para manter-se nele, o que se transforma em um obstáculo a ser superado. Através do personagem Maycon, um jovem, negro, morador da favela e criado apenas com a mãe e o irmão pequeno, retrata as dificuldades enfrentadas para que ele possa frequentar a faculdade de direito, espaço dominado por estudantes oriundos de outras classes sociais, e de famílias com tradição na área jurídica, e que exige dedicação, tempo e recursos para aquisição de livros e material para o melhor aprendizado.


Embora com valores bem delimitados e com a noção de certo e errado, fruto da educação recebida, o ambiente onde Maycon se criou é assim por ele descrito: “Onde eu moro, o certo e o errado se misturam, é difícil saber o lado da lei”.


Maycon consegue seu objetivo, mas não sem antes desviar de seu caminho, enveredando para o tráfico para poder custear as suas despesas, já que o modesto emprego em um comércio local não lhe proporcionava o mínimo necessário, situação interrompida por um infortúnio com seu irmão caçula que acidentalmente consumiu a droga que deixou escondida em casa e quase foi a óbito. Esse acontecimento o trouxe de volta ao rumo e ao objetivo.


REFLEXÕES

O Direito a Educação: A oportunidade de estudar só não basta, e a vaga não é o suficiente, os meios para aproveitar a oportunidade são também importantes;

O tráfico ao alcance como alternativa: Muito se fala sobre o envolvimento dos jovens com o tráfico de drogas, mas, muitas vezes, ele está ali à disposição como forma de proporcionar àqueles que sonham, o alcance de seus objetivos, que às vezes é apenas a aquisição de um bem material, um tênis da moda, outras vezes, o remédio, o gás, ou até o custeio dos estudos.

A relação com a Polícia: Um diálogo quase ao final do filme entre Maycon e seu colega é muito simbólico da relação diferenciada com a polícia, enquanto as classes menos favorecidas temem a polícia, as mais abastadas sentem que ela não pode os atingir, e estão acima dela.

Os fins justificam os meios? Uma pergunta que está sempre presente em nosso inconsciente: Será que ele deveria ser recriminado por utilizar o tráfico como forma de custear seus estudos?

Que mal tem fornecer drogas para seus colegas viciados, afinal não foi ele que os viciou, e assim ele até evita que eles se arrisquem indo buscar na favela?

Com certeza, muitas pessoas, considerariam perfeitamente justificável o gesto dele, pois costumamos ser compreensivas com atos, normalmente condenáveis, quando imbuídos de “boas intenções”.

O conflito entre o certo e o errado: O permanente conflito entre fazer aquilo que aprendemos como certo e o que é senso comum, ou que tudo mundo faz, esta presente o tempo todo.


Episódio 2 - ARROZ COM FEIJÃO

Arroz e Feijão mostra o drama vivido por uma família, que para poder melhorar a sua casa, precisa economizar, e uma das formas é comer arroz e feijão todos os dias. Uma noite o menino Wesley, escuta o pai lamentar ter de comer a mesma comida todos os dias, e no dia do aniversário do pai, o menino, com a ajuda do amigo “orelha”, resolve arranjar dinheiro para comprar um frango e lhe oferecer uma comida diferente naquele dia.


A primeira tentativa, pedindo o frango fiado no aviário não funciona, e também a de lavar um carro, pois o motorista não tinha dinheiro trocado e se compromete a pagar no outro dia. Quando finalmente conseguem o dinheiro para a galinha, após retirarem esterco de cavalo da calçada, o mesmo é roubado dos dois meninos, ironicamente por um grupo de adolescentes de classes mais abastadas. Frustrados, resolvem roubar o frango. Após receberem o pai com um frango assado e comemorarem o aniversário com um “banquete”, ao deitar o menino escuta o pai contar à esposa que não comia frango há muitos anos porque, quando criança, assistiu o seu pai ser espancado, na frente da família, por ter roubado um frango, que haviam comido.


No outro dia o menino tratou de conseguir o dinheiro para devolver o frango que haviam roubado.


REFLEXÕES

As escolhas: O episódio nos apresenta a pura realidade da maioria dos trabalhadores do país, a necessidade permanente de se fazer escolhas, pois para poder ampliar sua casa, tiveram que “trocar” a carne por sacos de cimento, e assim o feijão com arroz se tornou rotina na mesa da família.


O roubo, a classe social e a vergonha: Um trecho que chama muito a atenção é o roubo do dinheiro, que os meninos conseguiram de forma honesta, por parte de um grupo de adolescentes de classe média vindo da escola. Em um gesto de total covardia e prevalecimento o grupo, por pura “farra”, humilha os dois meninos e lhes subtraí o dinheiro. Não bastasse a ironia do gesto, que demonstra que falta de caráter não tem classe social, o amigo “orelha” faz uma ameaça a Wesley: “Se tu falar para alguém que nós fomos roubados por um “bandozinho de playboys”, juro que te mato, eu digo que é mentira e te mato!”. Esse gesto demonstra a pressão que a sociedade, com todos os seus “hábitos”, “costumes”, “praxes” e “lendas”, em todos os meios sociais, exerce sobre as pessoas desde crianças: Como admitir que eles, da favela, foram roubados por um grupo de “playboys”? Isso seria uma vergonha imensa e motivo de desonra.


A figura paterna, o exemplo: O episódio que traumatizou o pai, quando ainda criança, por ter visto o seu próprio pai ser espancado diante de todos por ter furtado um frango para ofertar a família, deixou uma lição, o traumatizou e também formou seu caráter, principalmente o gesto de não reagir ao agressor se submetendo a punição, demonstrando constrangimento e vergonha diante do acontecimento.


A lição que foi definitiva para o pai, então menino, servia agora para Wesley, que escutava do pai, que o importante era o fato de ver o filho “trabalhando para colocar comida dentro de casa”, e que isso o deixava orgulhoso.


Certo ou Errado: Neste capítulo, assim como nos demais, está o conflito ético entre o “certo e o errado” que permeia o filme: Os fins justificam os meios?


Episódio 3 - CONCERTO PARA VIOLINO

Esse episódio se inicia em ato ousado de um dos personagens, o Jota, que juntamente com seu grupo, roubam as armas do grupamento da polícia militar, onde seu amigo de infância, Ademir, trabalha.


Ademir, Jota e Marcinha se criaram na mesma favela, eram amigos de infância, e fizeram um pacto de amizade. Quando perdeu a mãe, após seu barraco desabar durante uma chuva, Ademir foi morar com uma tia e quando adulto ingressou na policial militar. Jota e Marcinha permaneceram morando na favela e tiveram uma filha juntos, separados, Márcia estudou violino e Jota se envolveu com o tráfico de drogas.


Pressionado a recuperar as armas pelo comandante do grupamento, Ademir, vai até a favela onde se criou e descobre, através do traficante Tiziu que o responsável pelo roubo foi seu amigo Jota. Tiziu propõe a Ademir um acordo, eles se unem e vão a busca da recuperação das armas, ele elimina seus “concorrentes” e toma conta do morro, e Ademir recupera as armas e ainda recebe um bom dinheiro.


Acordo feito, policiais e traficantes se unem para buscar as armas. Após recuperarem as armas e eliminarem parte do grupo em confronto, vão em busca de Jota que se escondeu na casa de Marcinha. Alertado sobre a tomada do morro por Tiziu Jota pede que Márcia, com sua filha e mãe, fuja, porém ela prefere ficar com ele.


Quando são encontrados, Tiziu sentencia os dois de morte, descrevendo, os requintes de crueldade que utilizará para matá-los. Ademir que presencia tudo, diante de seus amigos, toma a decisão de atirar em ambos.

REFLEXÕES

As Alianças e a verdadeira autoridade: Diante de uma realidade lamentável, mas concreta, para recuperar as armas, Ademir precisa acessar o tráfico que tem domínio sobre a área. É através deles que descobre o paradeiro das armas e os responsáveis pelo roubo, e é através de uma aliança com eles que conseguem atacar o outro bando e recuperar o armamento.


O traficante Tiziu demonstra total conhecimento sobre o morro e os acontecimentos nele. Durante a “tomada do morro” sempre quem esteve no comando foi Tiziu, a ponto de, durante a “operação” ele vestir um colete da polícia, o que representava que ele era a lei.


Prova de Amizade: O desfecho do episódio é chocante e muito impactante. Ademir, mesmo magoado pelo fato de Jota não o ter respeitado e roubado seu local de trabalho, gerando todo o problema, durante a “operação” tentou, em vão, demover Tiziu de encontrá-lo. Quando finalmente encontrou Jota, Tiziu o sentenciou de morte, juntamente com Márcia, descreveu que iria matá-lo lentamente extraindo partes de seu corpo e que ela seria “esculachada” e queimada viva. Ademir, diante do olhar de sofrimento dos amigos, e prevendo tudo que teriam de passar, sacou sua arma e atirou em ambos, dando-lhes uma morte instantânea e rápida. Teria sido essa uma verdadeira prova de amizade?


Episódio 4 - DEIXA VOAR

Final de ano escolar, os amigos Flávio, Rafael e Carol que já entraram de férias e Buiu que ainda terá de fazer recuperação, fazem planos e se divertem quando retornam para casa. Os amigos sugerem que Carol ajude Buiu, como os ajudou, porém ele não aceita, pois ela mora na “favela dos Alemães” que fica do outro lado da ponte, e quem é do lado de cá, não pode atravessar para o lado de lá. Carol vai embora sozinha sem a companhia dos amigos.


Os três amigos vão brincar de empinar pipa no topo da favela, Pardal, que confecciona uma pipa, a empresta para Flávio. Em uma disputa de pipas com outro grupo, ela se solta e voa para o território dos “Alemão”. Flávio, sem escolha, tem de buscá-la sozinho, em um território proibido para ele, pois nenhum amigo se encoraja a acompanhá-lo.


Do outro lado Flávio percorre as ruas atrás da pipa, observa as pessoas, e encontra um lugar muito familiar com o lugar de onde ele vem. Encontra a pipa já com outra pessoa, que juntamente com os amigos, empina pipas em um campo de futebol, e para recuperá-la Flávio quase se da mal e arranja uma confusão, que só não ocorreu porque o Alex, seu amigo, presencia o acontecimento e intervém. Ele aproveita então, para visitar sua colega Carol.


Carol e Flávio saem para tomar sorvete em clima de namoro, depois ela o acompanha até a ponte que divide os dois “territórios”, as duas “favelas”, a ao se despedirem combinam de irem ao baile juntos, mas do lado de Carol. Flávio topa, pois não tem mais medo de lá.


REFLEXÃO

O Território: Chama a atenção o respeito territorial, pois, mesmo sendo amigos da Carol, o grupo jamais a visitou por ela morar do outro lado da ponte, na favela dos “alemão”, local “proibido” para eles. Nem quando a pipa caiu daquele lado e Flávio foi obrigado a atravessar para ir buscar, os amigos o acompanharam, deixaram ir sozinho.


A Mística e o Desconhecido: O desconhecido sempre assusta, e sobre ele cria-se uma mística. O território dos “Alemão” se transformou em lugar “proibido” e “desconhecido” e a partir daí estabelece-se um temor sobre o lugar e sobre as pessoas, que mesmo próximas estão distantes, que nem a amizade é capaz de aproximar. O “medo” do lado de lá não permitia que os amigos acompanhassem a Carol, e fez com que abandonassem seu amigo, enquanto o que se tinha lá, é igual, talvez até melhor, do que se tem do lado de cá. A mensagem que fica é que o desconhecido não significa ruim ou pior, o desconhecido pode ser bom e não devemos ter medo de conhecer.


Episódio 5 - ACENDE A LUZ

É véspera de Natal e a companhia elétrica faz concertos na rede que está deixando muitas famílias sem energia elétrica na favela. Em meio aos preparativos e a chegada dos amigos e familiares para a ceia de Natal, há expectativa em que a energia seja restabelecida.


A equipe que está fazendo o serviço resolveu ir embora, ainda sem restabelecerem a energia em todas as casas, deixado trabalho por fazer. Pressionados pela comunidade prometem que voltarão logo, que só irão buscar uma peça. Eles não voltam.


A companhia elétrica envia o funcionário Lopes e seu parceiro para terminar o serviço que ficou pendente, Lopes é o funcionário “caxias”, “correto” e já de cara tem de subir uma longa escadaria com o equipamento pesado, enquanto seu colega fica na entrada da favela, pronto para ir embora. Lopes não reclama, faz seu trabalho com dedicação.


A comunidade já está inquieta, pois se aproxima a noite e nada do problema ser resolvido e impaciente pressiona Lopes. Seu colega resolve ir embora deixando-o sozinho na comunidade e sem condições de fazer o concerto por falta de uma peça. Ele se dispõe a ir buscá-la, mas as pessoas lhe proíbem de sair de lá sem deixar o sistema funcionando, não querem que ele faça como a outra equipe que disse que voltaria e não retornou. Mesmo prometendo que de posse da peça ele só sairia de lá com a luz funcionando, não consegue a confiança da população.


Lopes tenta convencer seu colega a ajudá-lo, ele fica só, não recebe apoio. Ao anoitecer e impossibilitado de sair do local, e de efetuar o concerto pela falta da peça, Lopes, diante da comunidade que aguarda no escuro, resolve restabelecer a energia fazendo uma “ligação direta”.


REFLEXÕES

Uns pagam pelos erros dos outros: Embora Lopes fosse um funcionário exemplar, e mais do que isso, uma pessoa de bom caráter, ciente de suas responsabilidades e que demonstra isso, principalmente quando dialoga com o colega que tenta convencê-lo a abandonar o serviço, pois é Natal, respondendo, que ali era Natal também, e não poderia deixar aquelas pessoas sem Luz. Mesmo assim, desde o momento que chega recebe reclamações dos moradores pela demora no atendimento, e a desconfiança quando diz que precisa pegar a peça.


Embora os moradores da favela demonstrem ser solidários e compreensivos, a demora e a falta de compromisso de alguns profissionais acaba gerando resistência, inquietação e indignação, e Lopes acabou sendo alvo das reclamações injustamente.


A amizade e a solidariedade: Durante todo o episódio podemos ver a solidariedade entre os moradores da comunidade, eles se ajudam, demonstram confiança no outro e todos acabam abraçando junto, em contrates com os colegas de Lopes que demonstraram pouca solidariedade com ele e quase nenhuma consideração pelas pessoas da comunidade, pensaram exclusivamente em si. Enquanto o pessoal da comunidade, mesmo indignados com a falta da luz, procuravam ter consideração por ele, preocupados se tinham sido muito duros, compartilhando com ele inclusive a bebida e a comida, seus colegas nem se importaram e mesmo o seu parceiro quando soube que ele estava lá na favela ainda, ao invés de socorrê-lo, tratou de desligar o telefone e mostrar indiferença com o seu infortúnio.

O Certo e o Errado: Durante todos os episódios a confusão entre o certo e o errado se fazem presentes, neste, Lopes, um funcionário exemplar, correto e trabalhador resolve o problema da iluminação realizando uma operação proibida. Lopes faz uma ligação direta, ou “gato”, como é popularmente conhecida. Abandonado por seus colegas e pela companhia a própria sorte, opta por cumprir o dever primeiro de proporcionar luz aos moradores que já sofrem sem ela há mais de um dia e que estão prestes a passar um Natal totalmente às escuras. Lopes renuncia ao manual de “regras” da empresa em nome do manual de regras dos direitos humanos, da solidariedade e do bom senso.


Produção acadêmica do Curso de História - Elaborado para a disciplina de Sociologia

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