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BBB um retrato do Brasil – Brasileiro Piedoso


Kleber Bambam e sua Maria Eugênia inauguraram no BBB a paixão do povo brasileiro pelos 'excluídos' - Reprodução TV Globo

Eu acompanho o Big Brother Brasil - BBB desde a primeira edição, sob o olhar de estranhamento de muitas pessoas próximas, pois, segundo eles, pessoas inteligentes não assistem a esse tipo de programa. Não sei dizer o que os leva a pensar assim, o fato é que, não só assisto, como comento, e uso exemplos do BBB para ilustrar algum comentário (uso muitas 'ilustrações" em meus comentários), sempre sob o olhar estranho de alguns.

Nestes 20 anos tive diferentes relações com o BBB, algumas vezes acompanhei tudo atento, comentava com frequência, outras larguei de mão antes do final, pelo programa tomar um rumo que me incomodava. Vejo muita semelhança com as eleições, pois como o público decide quem sai ou fica no programa, na maior parte das vezes a escolha da massa não condizia com minhas escolhas, e meu candidato preferido acabava sendo eliminado. Até hoje não sei como a Emilly venceu a edição 17 do BBB, da mesma forma que não consigo entender a eleição de Bolsonaro.


Eu sempre encarei o BBB como um ‘laboratório’. Sabe àqueles grupos focais que são muito usados por institutos de pesquisa, publicitários, empresas, marqueteiros, políticos e etc. onde pessoas, pré-selecionadas, são colocadas em uma sala enquanto um grupo os observa, em outra, através de uma janela de vidro onde não são vistos, e um mediador lhes faz perguntas, apresenta produtos, os submete a alguma situação? O BBB é algo semelhante, só que o grupo de observadores é de milhões, a janela é a TV, e os observadores podem interagir com os observados, decidindo se permanecem, ou não no programa.


Através do BBB podemos ver um pouco de como a população se comporta diante de algumas situações. Nestas vinte edições pude perceber que apesar de gerações diferentes (a primeira edição foi realizada em 2001, e um adolescente na época, está beirando os 40 anos hoje), alguns comportamentos permanecem, e se repetem, então resolvi compartilhar um pouco das minhas reflexões, produzidas após anos de observação.


Como minhas reflexões são um pouco longas, as farei em postagens diferentes, cada uma abordando um aspecto diferente.


O brasileiro é piedoso

Não poderia deixar de começar por aqui, uma das maiores certezas que o programa me deu nestes vinte anos, a de que o povo brasileiro se compadece e é solidário com os ‘excluídos’, os ‘oprimidos’. Em diversas ocasiões o povo ‘comprou a briga’ daqueles que sofriam algum processo de exclusão ou perseguição dentro da casa. Isso aparece já na primeira edição quando Kleber Bam-Bam ficou isolado e só tinha a Maria Eugênia, uma boneca que ele confeccionou e com quem interagia (a La Sr Wilson - bola de voley - do filme “Naufrágo” estrelado por Tom Hanks) para conversar, e o povo resolveu ficar ao seu lado, lhe transformando no primeiro vencedor do BBB; na edição três, Dhomini ganhou a simpatia do povo após enfrentar resistência na casa; na edição quatro, a Globo incluiu uma novidade, que era a possibilidade do ingresso através de um sorteio, o que permitiu que alguns participantes, ‘fora do padrão’ tradicional (jovens e bonitos) do BBB, pudessem ingressar no programa, nesta edição Cida e Thiago foram os sorteados, ambos pobres, e permaneceram até o final, tendo Cida, a babá, vencido o programa; Na edição cinco, Jean Wyllys foi recordista de paredões e quanto mais era atacado, mais fortalecido ficava, até vencer o programa em uma final que contou com Grazi Massafera como segunda colocada; na edição seis, Mara e Agustinho entraram por sorteio, humildes, só não foram para a final juntos por que tiveram que se enfrentar no último paredão antes da final, quando Mara levou a melhor sobre Augustinho, que havia vencido três paredões, para logo após sagrar-se vencedora da edição. A tradição seguiu com Diego Alemão, Marcelo Dourado, e tantos outros, até chegarmos a edição 20 onde ainda veremos crescer a popularidade de Felipe Prior e Babú, exatamente por sofrerem um processo de ‘exclusão’ dentro da casa.


Por isso, não é estranho que Babu Santana, ator com quase 20 anos de carreira, não se constranja de usar como argumento para sua permanência no programa o fato de ser um ator sem trabalho, com muitas dívidas, com filhos para criar, algo que a maioria de nós não costuma expor publicamente, por constrangimento, ainda mais em rede nacional, porém, o histórico do BBB nos mostra que esse tipo de argumento tende a angariar simpatia da população, bem como processos de perseguição e isolamento, e a colocação permanente em paredões.


No Final do mês de Janeiro Babu, em conversa com Pyong já previa as dificuldades que teria glo.bo/2U1reJR: "Sou muito fora da caixinha. Detesto indireta, detesto deboche, sou muito neurótico. Vou fazer um dia de silêncio. Sei que aqui é individual, mas precisamos de aliados. ...É um choque de gerações muito grande. Não consigo conviver com gente de plástico, gosto de gente de verdade, muita gente de plástico aqui dentro. Como me isolar sem ser uma planta?". Pyong ouve e aconselha Babu: "Se você não conseguir conviver, vai ficar um jogo difícil pra você".


Assim, com grande frequência escutamos os participantes do BBB dizerem que estão necessitados, que possuem dívidas e que o dinheiro vai ajudar eles e também ajudar outras pessoas, apelando para a solidariedade e compaixão do público. Isso funciona muito no Brasil.


Até por isso, trazendo para o cotidiano de nossas vidas, muitos analistas consideram que o fato do então candidato a presidência, Jair Bolsonaro, ter levado uma facada foi decisivo para que ele se sagrasse vencedor das eleições, pois comoveu as pessoas, e o colocou na condição de vítima, o que costuma angariar simpatia da população. Essa postura, inclusive, é frequentemente usada por ele, hoje como presidente da república, quando se coloca como perseguido pelos políticos, pela mídia, vítima do sistema, que o impede de ‘salvar’ o país, levando uma legião de seguidores a saírem em sua defesa, como se fizessem uma cruzada pela ‘justiça’.


Não sou aderente aos discursos de meritocracia mais tradicionais, pois entendo que não devemos tratar iguais os desiguais e sim, em muitas ocasiões, levar em consideração as diferentes condições a que o individuo foi submetido e que podem lhe conceder uma vantagem, ou desvantagem, em determinada situação, por isso, o mérito, por si só, não pode ser aplicado em todas as situações. O fato é, que também a ‘piedade’, por si só, não pode ser o único critério para determinar se alguém merece ou não ocupar determinada posição.


Se no BBB muitas vezes a ‘generosidade’ e a ‘compaixão’ pesou para determinar quem seria o vencedor do prêmio milionário, não podemos dizer que esse critério determinou que a pessoa que 'mais mereceu' tenha sido vencedora, pelo contrário, muitas vezes o programa teria sido monótono e desinteressante se não fosse os antagonistas, os ‘vilões’ na visão do povo. Nesta edição, muito provavelmente, o Pyong não irá até a final, pois personagens como ele acabam apenas sendo ‘escada’ para algum personagem ‘vítima’ escolhido pelo povo.


Quem será o próximo escolhido de povo?

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