© 2020 by Serginho Neglia.

criado com Wix.com

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • White Pinterest Icon
  • White Instagram Icon
  • Serginho Neglia

A gente não quer só comida


Embora, após uma luta intensa das organizações do movimento negro, tenhamos a inclusão do ensino de história da África e Afro-Brasileira nos currículos escolares, pouco se vê desta abordagem nas salas de aula.


Trabalhar o ensino de História da África e Afro-brasileira ainda depende muito do esforço pessoal do professor, inclusive de buscar a capacitação necessária para poder abordar o assunto de forma apropriada, sem enveredar para os estereótipos, que reproduzem o caráter “selvagem” e “primitivo” da África, bem como a apresentação da contribuição do negro como escravo.


Além destas dificuldades, mesmo com boa vontade, ainda é necessário superar algumas barreiras, como por exemplo, abordar esse contexto em uma escola privada com predominância de uma elite branca. Afinal, o objetivo é abordar o assunto em todos os estabelecimentos de ensino e não só nas escolas públicas onde há uma grande população negra. A inserção do assunto em provas de vestibular e Enem tem auxiliado a romper essas barreiras.


A análise pessimista parece não reconhecer os avanços conquistados, que foram muitos, dada a lentidão com que algumas mudanças são feitas em nosso país, basta que pensemos que as trabalhadoras domésticas levaram mais de 70 anos para conquistar os direitos que os outros trabalhadores conquistaram na década de 30.


Porém, não podemos negar, que no país da propalada “democracia racial” onde as elites insistem em negar a existência do racismo, ainda se fale tão pouco sobre os negros nas salas de aula.


Hoje encontramos cadeiras de cultura afro-brasileira nas faculdades, porem a maior parte são eletivas, que até tem vantagens por serem oferecidas também para os cursos de letras, pedagogia e licenciaturas, e não só a história, mas, não seria o caso de serem obrigatórias, em todas essas disciplinas, dada a necessidade urgente de formarmos uma geração de professores capacitados para abordar esse assunto de forma adequada, em sala de aula, desde as séries iniciais?


Como poderá o professor abordar as situações cotidianas que envolvem as crianças negras sem o preparo necessário?


Não podemos esquecer que somos fruto da nossa própria circunstância, e mesmo com a melhor das intenções, a “supremacia” branca, inclusive na classe do magistério, também trás dificuldades de compreensão da realidade vivida pelos negros e a importância da necessidade urgente de mudanças.


Anderson Oliva, em seu artigo sobre a abordagem da História Africana nos livros didáticos brasileiros, detectou apenas 21% do total dos livros pesquisados, reservaram capítulos inteiros ou tópicos extensos para o tratamento da História da Africana. Embora do ponto de vista quantitativo seja pouco, já é um avanço, e um sinal de que está se percorrendo um caminho, porém, em uma analise qualitativa se percebeu uma “certa falta de intimidade com a literatura especializada”. Por isso, ele alerta sobre a necessidade de ampliação da quantidade e da qualidade da produção acadêmica, bem como da necessidade de cursos de formação.


Embora o que pese às críticas a utilização do livro didático, é necessário reconhecer que eles ocupam um papel importante, uma vez que a legislação é relativamente nova e que a maior parte dos professores que atuam nas salas de aula são formados nos valores, concepções e compreensões anteriores, e que uma produção qualificada dos livros didáticos pode contribuir no processo de popularização do conteúdo em sala de aula.


No contexto das leis 10.639/2003 e 11.645/2008 é preciso registrar que elas são fruto da luta dos movimentos negros organizados nas mais diversas formas, e que fazem parte de um conjunto de avanços conquistados, basicamente nas duas últimas décadas, como o reconhecimento da legitimidade das políticas de ações afirmativas, e a construção de um arcabouço jurídico e administrativo no campo da educação.


Os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros NEAB’s tiveram e têm um papel importante nesta caminhada, sendo um espaço de união e troca, como expressou Paulino Cardoso: “os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e demais grupo correlatos, são expressão deste espírito comunitário em nossas vidas – por meio deles nós não estamos mais sozinhos, pois num esforço quase sempre multi e interdisciplinar, movidos pela necessidade, juntamos colegas de diferentes contos de nossas instituições, estados”. Com o fortalecimento dos NEAB’s, a ocupação do espaço de estudo e pesquisa nas universidades, ampliou-se e qualificou a produção acadêmica, trazendo, para além da conquista da abordagem do assunto na escola, uma estética de forma e conteúdo mais condizentes com a realidade.


Ainda, porém, há um espaço a ser conquistado, que é a abordagem adequada nos meios de comunicação em massa, sobretudo na televisão, que dominadas pelas elites econômicas, e também religiosas, ainda reproduzem o negro de forma estereotipada, em condições de inferioridade, pois, se por um lado, um professor, bem intencionado e dedicado pode fazer uma abordagem adequada na sala de aula, o mesmo aluno, será bombardeado pelos programas de televisão, pelas novelas, onde o negro aparece predominantemente como escravo, motorista, porteiro, segurança, e pelas seções de exorcismo de “exus” nos programas religiosos.


Vivemos em um período de turbulência política, e não se sabe o quanto ainda poderá se avançar neste assunto, poderemos até retroceder se não tivermos força para defender e sustentar os avanços conquistados até agora, e essa não é uma luta apenas dos negros, mas sim de todos nós que compreendemos sua importância. Se quer muito mais que um prato de comida, como conclui Paulino de Jesus Francisco Cardoso:

Nosso país foi refundado com a Constituição Federal de 1988 e encontra-se em pleno processo de expansão de direitos, na verdade de configuração de sujeitos de direitos que querem muito mais que um prato de comida, um tablet da moda, um celular, forno de micro-ondas, televisão de led, geladeira frostfree, um automóvel zero quilômetro, um teto e médico no posto de saúde. Elas/eles querem ser e se sentir representadas/os em um novo espaço democrático.”


As imagens que ilustram esse post são do meu amigo Ubirajara Machado, um operário da imagem, como se autodenomina. Bira é um profissional excepcional que produz imagens de grande sensibilidade da "gente linda que ele encontra por aí". Confira essas e outras no @ubirajaramachado


Produção acadêmica do Curso de História -Texto elaborado para prática V

2 visualizações